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A saga PIIGS: a Espanha e o desemprego.

Postado em : 18-03-2010 | Por : Nastássia | Em : Economia, Finanças

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Para continuar com a sequência dos depoimentos aqui já publicados de pessoas que são naturais e moram nos países dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), adiciono as opiniões sobre a economia espanhola. Além da dívida estar alta (motivo pelo qual o país faz parte do grupo), o mercado de trabalho é um fator crítico para o país.

DEPOIMENTO 1:

Aqui a situação não está boa, mas também não é péssima. O maior problema é o mercado de trabalho e a situação mais delicada parece ser a dos jovens. Aqui estão alguns números (apesar que acredito que você possa encontrá-los em outras fontes): a taxa de desemprego está pouco abaixo de 20%, mas está em torno de 40% para os que tem entre 20 e 30 anos – o dobro da média da União Europeia. Mesmo assim, varia bastante de acordo com o campo de trabalho. Em Engenharia Civil, como é relacionado com o setor de construção, parece muito difícil encontrar uma oferta de emprego. De qualquer forma, como o nível de educação nessa área é alto, em torno de 80% dos meus amigos encontraram emprego nos primeiros 5 meses depois que eles se formaram. Na minha cidade (Madrid), todos meus amigos que tem curso superior, com exceção de um (90%), estão trabalhando. Por outro lado, é muito mais difícil para os que não tem educação. Ninguém encontra emprego, apesar de 2 entre 5 conseguirem manter seu trabalho mesmo com a crise.

O outro problema para a população é a restrição de crédito. É muito difícil conseguir empréstimos ou financiamentos imobiliários com os bancos, mas ainda parece ser mais fácil que em outros países. Os bancos espanhóis parecem ter superado a crise. Pode ser mais difícil em relação à hipotecas, especialmente porque desde o boom de construção civil houve um aumento tão expressivo no número de flats que eles passaram a ser um investimento não lucrativo. Dois amigos meus estão pagando hipotecas e houve redução da parcela a ser paga. Não conheço ninguém que tenha pedido hipoteca recentemente, pois, como falei, não é mais atrativo. O valor dos aluguéis não mudou.

Não há receio algum quanto a crimes ou problemas sociais. A segurança ainda está muito boa. Madrid é a capital mais segura da Europa de acordo com os últimos dados que eu vi

Em relação aos jornais, bom, tem todos os tipos de notícias. Os jornais que estavam acostumados a apoiar o governo continuam o fazendo, mas começaram a criticá-lo também antes do verão. Os que agiam de forma oposta, agem da mesma forma antes do verão e agora: continuam criticando, mas agora de forma mais intensa. O fato é que qualquer jornal sério e imparcial tem um olhar pessimista em relação à economia da Espanha e pesquisas internacionais não parecem mostrar resultados melhores.

Meus amigos e eu acreditamos que algumas reformas estruturais tem de ser tomadas, mas elas são controversas e o governo não tem poder suficiente (pois tem somente 45% dos parlamentares) para adotá-las e arriscaria ser prejudicado nas próximas eleições. Essas medidas, propostas por “pesquisadores” espanhóis, incluem a redução do processo de demissões (temos um mercado de trabalho excessivamente protegido no momento), acelerar a criação de novos negócios, conciliar as leis, de acordo com a região, e, provavelmente, aumentar alguns impostos.

No longo prazo, essas medidas envolveriam maior nível de educação – especialmente nas classes mais baixas – acelerar o trâmite no Tribunal de Justiça e dar apoio a alguns campos em que as empresas espanholas não mostraram capacidade de adaptação tecnológica: energia renovável, transportes e instituições financeiras, basicamente através de cortes nos impostos relacionados com P&D (pesquisa e desenvolvimento).

DEPOIMENTO 2:

Sobre a Espanha…  Bem, a mídia está dizendo o que o governo fala: o desemprego está alto, é muito difícil achar emprego, é complicado para as empresas conseguirem crédito (pequenas empresas), o mercado imobiliário está em uma situação terrível, etc, etc, etc.

Um dos maiores problemas na Espanha neste momento é o mercado de trabalho. Nós temos dois tipos de contrato:

- Contrato Fixo: que significa ser muito caro para as empresas demitirem. Companhias não gostam de contratar e assinar esse tipo de contrato por essa razão – se eles precisam demitir pessoas, precisam pagá-los uma boa quantia de dinheiro.

- Contrato Temporário: Eles contratam pessoas por um tempo e quando esse período acaba, eles podem demitir sem motivo real (assim é mais barato para as empresas)

Isso tem relação com os problemas de educação, pois as empresas investem em educação apenas para os funcionários com “Contrato Fixo”, já que esses serão os que permanecerão na empresa – e eles não querem gastar dinheiro com alguém que irá embora em breve.

Conclusão: Os trabalhadores que estão sendo demitidos são sempre os mesmos. Eles não possuem boa educação e também não as obtém nas empresas. Uma grande parte de nossa população está envelhecendo sem se especializar em nada, enquanto o tempo passa vai se tornando ainda mais dificil sobreviver.

Medidas que estão sendo tomadas contra a crise:

1 – O governo abaixou o imposto sobre a renda do trabalhador esperando que isso impulsionasse o consumo. Foi uma péssima ideia, pois as pessoas guardaram esse dinheiro – eles esperavam que os impostos voltassem a subir brevemente -  e a renda do governo despencou.
2 – Para criar novos empregos, o governo gastou muito dinheiro pavimentando ruas de várias cidades. Essa também foi uma péssima ideia pelas seguintes razões:

- As estradas não estavam tão velhas

- Eles criaram empregos para muitos trabalhadores com baixa qualificação, que já sabiam fazer esse trabalho, mas depois de todo o dinheiro gasto, os trabalhadores não aprenderam nenhuma nova atividade.

Está muito difícil achar emprego. Um amigo meu estudou economia em uma faculdade privada em Barcelona (ESADE) e depois fez um estágio em um banco em Nova Iorque. Somente depois um ano e várias entrevistas de emprego, ele conseguiu achar um trabalho (agora começou a trabalhar para a Deloitte). Meus amigos que estudam administração em faculdades públicas só conseguem estágios (nenhum trabalho real) e são muito mal pagos por seis meses. Uma das minhas melhores amigas que estudou comigo na Alemanha já fez três estágios por lá (GM, Bosh, entre outros) e não é contratada.

Eu fiz inscriçãoem 5 lugares diferentes para conseguir bolsa de estudos (quero fazer MBA em Negócios Internacionais), participei desses 5 processos, mas não tive sucesso em nenhum dos casos. Ninguém tem um bom emprego para oferecer e todos estão tentando conseguir bolsas.

Meus amigos que estudaram direito estão todos trabalhando. Eles não acham ótimos empregos com grandes salários, mas ao mesmos conseguem achar vagas. E ainda precisam trabalham várias horas.

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